MORADA DOS DEUSES
Nem o ilustre e visionário Visconde de Mauá poderia imaginar o futuro destinado à montanhosa região batizada com o seu nome
A região de Visconde de Mauá fica na vertente mais molhada da serra da Mantiqueira. O Rio Preto, que divide os estados do Rio e Minas Gerais, e os inúmeros afluentes que compõem sua microbacia hidrográfica garantem uma das maiores concentrações de rios, riachos, córregos, cascatas, corredeiras e cachoeiras do país. A água pura correndo por todos os lados, cercada por exuberante mata atlântica, indica a riqueza natural desse lugar. Um cenário idílico, que convida a devaneios, caminhadas, passeios de bike e cavalgadas. Chalés com lareira, vinho na varanda, fondues fumegantes e ofurôs quentinhos remetem a namoro, descanso e prazer. Famílias com crianças contam com excelentes hotéis-fazenda; aventureiros podem curtir de trilhas ecológicas a rafting, passando por rapel, vôo de paraglider e mountainboard. E para casais em clima de lua-de-mel, há um leque infinito de lugares para comprar, comer, beber, dormir, se divertir e, claro, namorar até a hora de voltar para casa.
Desde o início dos anos 70 do século passado, muita gente subiu a serra “só para conhecer” e foi definitivamente atraída pela beleza e magia do lugar. Os solavancos da estrada não impediram que uma legião de paulistas, cariocas (mais outros tantos mineiros, baianos, etc) e gringos de diversas origens se instalasse por aqui em busca de qualidade de vida. Foram eles, mais a hospitalidade mineira que aprenderam a cultivar, que fizeram de Mauá um pólo turístico que une nuances rústicas da serra a uma estrutura e atendimento com ares cosmopolitas.
Terra das águas e do céu estrelado, a região é porto seguro para os amantes da boa gastronomia. Cada hotelzinho ou restaurante caseiro, por mais simples que pareça, reserva um petisco inigualável: é o pastel sequinho, a porção de truta caprichada, o drinque com limão recém-colhido, doces divinos e por aí vai. Os restaurantes e pousadas mais transados então, nem se fala, tanto que merecem capítulos à parte, na revista e no site. O fato é que, de perdição em perdição, o maior perigo para o visitante desavisado é ganhar uns quilinhos indesejáveis...
Espalhadas pelos vales e vilas, pousadas superpersonalizadas oferecem muito mais do que o conforto de seus chalés: enchem nossos olhos com vistas para a mata e convidam nossos pés a andar “até logo ali”, como dizem os mineiros, para um banho de rio ou mergulho nas centenas de piscinas naturais. Sim, a exuberância da natureza é a cereja do bolo. E para desfrutar as montanhas, há trilhas para curtir a pé, a cavalo, de bike e de moto. Dá pra galgar a Pedra Selada (1.755 metros), atravessar uma trilha com mata atlântica intocada até a cachoeira do Marimbondo, fazer cavalgadas de três dias, alugar um veículo 4x4 e chegar até as mais distantes cachoeiras...
Mauá também tem atrativos para aqueles que jamais se animariam a uma caminhada de seis horas ou um mergulho em águas gélidas. Estamos falando de sua vocação artística. Somente nos vales do Pavão, das Cruzes, da Santa Clara e no Alto da Maromba, há nove ateliês abertos à visitação. Nas vilas, há dezenas de lojinhas que vendem artesanato local e regional, como bordados, velas, móbiles, bonecas, travesseiros de ervas, óleos medicinais, enfeites em material reciclado, alegres fadinhas, gnomos sapecas e fantásticos trabalhos feitos em vidro por uma trupe de Matutu, vilarejo situado em outro ponto da Mantiqueira. Na cachoeira do Escorrega, uma tradicional feirinha exibe, aos finais de semana, trabalhos de artesãos locais.
Quatro vilas e muitos vales
A região é conhecida por “Mauá”, mas Visconde de Mauá é uma das quatro vilas – as outras são Maringá, Maromba e Mirantão. O curioso é que nenhuma delas tem autonomia política: Maromba faz parte do município de Itatiaia; Mirantão pertence a Bocaina de Minas, e Maringá, a mais badalada das quatro, é dividida bem no centrinho pelo Rio Preto, que separa os estados de MG e RJ.
Parte do município de Resende, a vila de Visconde de Mauá é a primeira que se vê ao chegar pela serra. Ali, um posto de informações turísticas – mantido pela Mauatur, sólida associação de moradores e comerciantes –, uma bucólica igreja construída em 1934 e o clássico campinho de futebol (com cavalos pastando!) dão as boas-vindas. Ao longo de uma única “avenida”, casinhas se alinham num arranjo típico de vilarejo. Entre elas, a escola, o correio, o caixa eletrônico, o mercadinho... e também um restaurante estrelado, outro cheio de estilo, um bistrô modernoso, uma loja chiquérrima, uma pousada gostosa e o Centro Cultural Visconde de Mauá, importante ponto de referência para a comunidade.
Maringá, recheada de pubs e lojinhas, faz pulsar o coração turístico: há tantos restaurantes que uma das ruas foi batizada de Alameda Gastronômica. Nos finais de semana e feriados, muitas casas abrem as portas para shows de jazz, blues, MPB e rock, comandados por músicos locais e convidados.
Para chegar à Maromba é preciso passar por Maringá e seguir em frente. Ali a galera jovem e festiva sente-se em casa nos bares de rua, em baladinhas que rompem a madrugada e nas pensões de preço camarada.
Mirantão é o vilarejo mais embrenhado nas Minas Gerais e vive praticamente alheio à ferveção turística da região. Casas muito simples, com seus jardins floridos e uma clássica pracinha de interior, definem o arraial. Melhor para os desbravadores, pois o lugar preserva surpresas e cachoeiras praticamente intocadas, como a da Prata.
Puro (e gélido) deleite
A região de Visconde de Mauá fica na Área de Proteção Ambiental (APA) Serra da Mantiqueira e boa parte do território pertence à Unidade de Proteção Integral do Parque Nacional do Itatiaia. Sinal de lugar a ser valorizado e preservado. O bom é que isso acontece nas mais de 30 cachoeiras abertas à visitação (fora as que permanecem selvagens).
Todas têm água limpíssima, abraçadas por farta mata ciliar e onde não se costuma ver nenhuma latinha de cerveja nas trilhas de acesso. Ponto para o turismo sustentável – termo novo, mas que já tem história em Mauá, berço do projeto de hotelaria Lixo Mínimo, e que combina perfeitamente com o espírito dessa morada dos deuses.
Os alpes suiços não eram aqui...
Os índios Puris deram nome à Mantiqueira: “lugar onde nascem as águas”. Eles dominaram a região até 1908, quando foi criado o Núcleo Colonial Visconde de Mauá, para incrementar o povoamento de áreas inóspitas nas cercanias da então capital, Rio de Janeiro. O Núcleo foi vendido a imigrantes europeus (principalmente alemães) como uma “área muy fértil, com potencial, clima e solo semelhantes aos dos Alpes suíços”. Claro que a promessa de vastas porções de terra boa, oferecidas a um precinho camarada e excelentes condições de pagamento, fez sucesso. E no primeiro ano da colonização, mais de 500 famílias se acotovelaram por lá. Mas a terra não era tão fértil e a precariedade das estradas inviabilizava a venda da produção. Foi um desastre. A partir de 1916, o governo permitiu a comercialização dos lotes da colônia, e a maioria dos imigrantes partiu em busca de dias melhores. Das famílias que ficaram, algumas acumularam terras, formando fazendas para criação de gado leiteiro. Paralelamente à era do leite, começaram a surgir hospedarias para os primeiros – e amalucados – turistas, que desciam do trem em Resende e subiam a serra a cavalo ou dentro de balaios em lombo de burro. |